A tecnologia transformou a forma como nos comunicamos, trabalhamos e buscamos informações. Na saúde mental, essa revolução trouxe novas possibilidades, como a psicoterapia online, ampliando o acesso ao apoio psicológico profissional. No entanto, também levantou desafios, como a proliferação de chatbots de suporte emocional e o impacto do uso excessivo das redes sociais no bem-estar psíquico.
Estudos recentes de autores como Jean Twenge (2017) e Sherry Turkle (2015) discutem como a hiperconectividade influencia a saúde mental, especialmente entre jovens. Twenge, no seu livro "iGen”, analisa a geração nascida entre 1995 e 2012, que cresceu com smartphones e redes sociais, e investiga como a hiperconectividade influencia o comportamento, a saúde mental e o desenvolvimento emocional dos jovens. Ela aponta que o uso excessivo de telas está relacionado ao aumento da ansiedade, depressão e isolamento social, além de afetar a capacidade de lidar com desafios da vida adulta e afirma que o aumento do tempo de tela está correlacionado a taxas crescentes de depressão e ansiedade. Turkle, em "Reclaiming Conversation", confirma essa ideia e argumenta que a falta de interações presenciais prejudica a empatia e a conexão humana.
Ao abordar a saúde mental na era digital, é essencial destacar o papel das psicoterapias online e dos chatbots. Embora ambos façam parte da revolução tecnológica no cuidado psicológico, é importante compreender que são intervenções distintas, com propósitos e abordagens bem diferentes.
A psicoterapia online é um atendimento realizado por um psicólogo habilitado por meio de plataformas digitais. Essa modalidade permite que pessoas que moram em locais remotos, possuem dificuldades de deslocamento ou vivem no exterior tenham acesso ao suporte profissional adequado. O atendimento segue os mesmos princípios da terapia presencial, sendo fundamentado em ética, sigilo e nas abordagens psicológicas cientificamente validadas.
Estudos apontam que a terapia online é eficaz para tratar questões como ansiedade, depressão e estresse, desde que realizada por profissionais qualificados. Segundo John Torous (2021), psiquiatra e pesquisador de saúde digital, a terapia online pode ser tão eficaz quanto a presencial quando há engajamento do paciente e suporte adequado.
Psicólogos versus Chatbots: Quais as Diferenças?
Nos últimos anos, plataformas de autoajuda e chatbots de suporte emocional ganharam popularidade. Essas ferramentas utilizam inteligência artificial para fornecer respostas automáticas a usuários que buscam orientação emocional. No entanto, é fundamental entender a diferença entre esse tipo de suporte e a psicoterapia realizada por um profissional.
Aprofundamento no Tratamento: Psicólogos são treinados para compreender as complexidades emocionais e cognitivas do paciente, conduzindo um processo terapêutico estruturado. Chatbots apenas fornecem respostas padronizadas e não são capazes de adaptar-se às necessidades individuais de cada pessoa.
Sigilo e Ética Profissional: Psicólogos seguem normas e diretrizes rigorosas estabelecidas pelos conselhos de psicologia, garantindo sigilo e respeito à privacidade do paciente. Chatbots, por outro lado, podem armazenar dados de forma vulnerável e não possuem compromisso ético com o usuário.
Validação Científica: A terapia psicológica é baseada em evidências científicas e abordagens reconhecidas, como a Psicanálise, as Psicoterapias baseadas em vivências- humanistas e as Terapias Cognitivo-Comportamental (TCC). Chatbots utilizam algoritmos e padrões de respostas sem embasamento terapêutico validado.
Risco de Diagnósticos Equivocados: Um psicólogo tem condição de avaliar se um paciente necessita de intervenção especializada, como psiquiatria ou emergência psicológica. Chatbots podem minimizar sintomas graves e não possuem a capacidade de identificar transtornos com precisão.
Apesar dos benefícios, o avanço digital também trouxe desafios para a saúde mental. O uso excessivo das redes sociais pode contribuir para sentimentos de comparação, ansiedade e baixa autoestima. O acesso fácil a informações sobre saúde mental também pode levar à automedicação e autodiagnósticos equivocados.
Tristan Harris (2020, 2023), ex-funcionário do Google e especialista em ética digital, alerta sobre como os algoritmos das redes sociais são projetados para maximizar o tempo de tela, muitas vezes às custas da saúde mental dos usuários. Estudos como os de Jonathan Haidt (2022) reforçam a relação entre redes sociais e aumento da ansiedade entre adolescentes.
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han também discute os impactos da digitalização em suas obras, como No Enxame: Perspectivas do Digital (2018). Ele argumenta que a sociedade digital favorece a hipertransparência e a exposição constante, resultando em sobrecarga psíquica e na fragilização da subjetividade.
Nesse sentido, entende-se que a tecnologia pode ser uma aliada poderosa da saúde mental quando utilizada com responsabilidade. A psicoterapia online é uma ferramenta eficaz para ampliar o acesso ao apoio psicológico profissional, mas não deve ser confundida com o suporte superficial oferecido por chatbots. Para cuidar verdadeiramente da saúde mental, é essencial buscar profissionais qualificados e utilizar a tecnologia de forma consciente, garantindo um bem-estar emocional sustentável.
Para ampliar e aprofundar essa discussão, que considero de grande importância para a Saúde Mental e Integral, deixo aqui as referências dos autores que usei para a elaboração desse artigo.
Referências Bibliográficas
Bauman, Z. (2008). A Sociedade Individualizada: Vidas Contemporâneas. Zahar.
Carr, N. (2011). A Geração Superficial: O Que a Internet Está Fazendo com Nossos Cérebros. Agir.
Haidt, J. (2024). Mentes Ansiosas: Como a Infância Conectada Está Gerando uma Epidemia de Problemas Mentais. Intrínseca.
Han, B.-C. (2018). No Enxame: Perspectivas do Digital. Vozes.
Harris, T. (2020, 2023). The Social Dilemma and Ethical Tech Awareness. Center for Humane Technology.
Pinker, S. (2015). O Efeito Aldeia: Como o Contato Pessoal Pode Melhorar Nossa Saúde, Felicidade e Inteligência. BestSeller.
Torous, J. (2021). Digital Mental Health: Navigating the Future of Online Therapy. Academic Press.
Turkle, S. (2015). Reclaiming Conversation: The Power of Talk in a Digital Age. Penguin Press.
Twenge, J. (2017). iGen: Why Today’s Super-Connected Kids Are Growing Up Less Rebellious, More Tolerant, Less Happy—and Completely Unprepared for Adulthood. Atria Books.
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